quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Tá bom


Tá, eu já te disse que não sei mentir. No máximo, eu consigo roubar pensamentos incrustados nos meus des-espaços, e, sorrateiramente, falar de uma forma que você nunca irá entender. E não, eu não sou louca. Eu sou essa hipérbole desossada que se acostumou a dar prazer às minhas palavras, através do seu corpo e do seu sorriso. Ah, o seu sorriso, acho que sobre isso eu nunca te falei, não é? Há tempos hipnotizei-me e prometi a mim mesma dedicar-te cada pedaço do meu desejo e do meu amor bondosamente fraternal, oferecer-te meu não e meu sim, aquilo que mais te aprouver, aquilo que mais te fizer homem e amigo, tudo ao mesmo tempo e com a mesma intensidade. Isso só por causa do seu sorriso, sabia? Ele abriu para mim seu buraco negro, com as paredes barrentas infiltradas de sonhos e desesperos, amor e saudade, medo e solidão. E eu amei tudo isso, tudo seu, tudo são e doente. Mas não, não posso te dizer essas verdades. Eu juraria preferir mentir. Ser apenas a incógnita oscilante que não machuca nem desespera, que não provoca e não sacia. Queria ser qualquer coisa que fosse uma falácia suportavelmente aceitável. Queria dizer que não te amo, mas...

eu já te disse que não sei mentir...
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Lais Mouriê
No ouvido: Plush, Stone Temple Pilots

sábado, 17 de outubro de 2009

Claridade amassada


Será no meu corpo que aprenderá a se livrar dos fios que te amarram, delicadamente, a passados e futuros improváveis.

Será assim, seguramente inseguro, que deslizará pelo meu suor e pela tua roupa branca, pelo meu desejo e pelo teu não, e encontrará o que nunca encontraremos novamente.

Será, e será, até que o sabor em minha língua se desfaça em sua pele, até que minha espera pelo seu desespero por mim se transforme em vida, até que as horas não acompanhem nossos ponteiros.

Será em meu vestido vermelho o botão arrancado. Será em minha pele perfumada o gosto acre da volúpia. Será em meu sono inquietante minha cama desarrumada. Será o pecado. Será a proibição mais deliciosamente permitida. Você será.

E eu sou.
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Lais Mouriê
No ouvido: Não dá mais pra segurar (explode coração): Maria Bethânia

sábado, 18 de julho de 2009

Tempo


Ostracismo criativo, falta de assunto, mudanças substanciais de vida e de experiência, inconstância linguística, desmaterialização de sentimentos, análise confortavelmente desconfortável, enfim... algo ainda não identificado (e não falo de OVNI´s) faz com que eu assuma uma posição nunca antes pensada: fechar, por tempo indeterminado o Lá no Mundo de Lá. Vou deixá-lo no ar, mesmo sem novos posts, para que nos meus não raros momentos de nostalgia eu possa voltar e rever o que de tão concreto e abstrato passou por mim. E como o momento é de mais pura nostalgia, a imagem acima, do meu querido amigo Eduardo Gontijo, arranca-me lágrimas sorridentes dos olhos. É a imagem da Lagoa da Pampulha, em BH, minha cidade, da qual fui voluntariamente exilada, mas que amo, amo e amo!


Assim fico, mineiramente quieta, para quem sabe, mais tarde, voltar com um novo colorido nas asas e com novas gotas de vida nas penas de minha alma.
Lais Mouriê

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Domingo tarde


Para quem parte, sem levar o que não viveu, fica apenas o meu não-sorriso velado pela renda branca do meu véu. Não há santidade na minha escuridão. Meu véu não esconde a derrota da tarde de domingo. Mas eu levo comigo. Levo o leve tremer de suas pupilas durante nosso gozo. Carrego, leve, o gosto do levedo da cerveja de sua boca. E a tristeza do seu transfigurado sim.


Sim

Não

Talvez


Para você que parte assim, cansado de prazer e tesão, fico com as pernas bambas e abertas. Fico e carrego o seu não-filho, vou e carrego-te incrustado nos meus mamilos. Naquela calmaria de tarde praiana, levo seu líquido quente escorrendo nas águas mornas do mar. Numa tarde de domingo há milênios projetada.




Nossa tarde de domingo presente...

presente, para quem fica.


Lais Mouriê
No ouvido: A ostra e o vento, Chico Buarque

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Bicho


Eu mastigo a tua ausência, cheia de pintas e de sossegos. Nada dói, o que vai dentro é naturalmente limpo, assim como a tua ausência, que eu engulo, depois do almoço. Tu me ofereces minhas descompassadas loucuras revertidas em pássaros sobre o mar-piscina. Lembro de ti, transfigurado nas águas, e tua ausência revela-se pintada no meu sol. Alimento-me de tuas lembranças e lambuzo-me com tua pele presente na minha língua.

Tu não estás, e a paz me transforma em bicho faminto.


Lais Mouriê

No ouvido: Blues da Piedade - Cazuza

quarta-feira, 4 de março de 2009

Sou


Sou a ousadia pagã numa quarta-feira de cinzas.

Cinzas do teu corpo queimado pelo meu fogo atroz

mordaz

terno

e ingênuo.


Sou a súplica pelo vento que apazigua o calor do verão.

Verão instalado nas rutilâncias da minha carne branca

santa

pura

e profana.


Sou a desnecessidade de descanso de um domingo vazio.

Vazio que absorve minhas veias outrora alimentada pelo seu sangue azul

salgado

venenoso

e infantil.


Sou a mulher nascida depois da morte da esperança cor de rosa.

Rosa jogada no túmulo do nosso amor amedrontado

inseguro

demasiado

e viril.



Lais Mouriê

Fotografia: www.olhares.com

No ouvido: Sapato novo, Los Hermanos



domingo, 1 de março de 2009

Se você continua a achar que sabe tudo sobre si, experimenta deixar cair, assim, propositalmente, uma taça de cristal no chão.